CONCEPÇÃO DE MOVIMENTO ESTUDANTIL

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1)      Por onde passa a discussão
Quando nos propusemos a debater o Movimento Estudantil, a partir de nossa Assembléia Nacional, sabíamos dos desafios que estavam a nossa frente e, que teríamos que enfrentá-los. E em termos teóricos (mas com enormes reflexos na prática) veremos que o conceito, a forma como concebemos o Movimento Estudantil é um dos debates centrais para atuação da Consulta Popular nesse segmento. O que entendemos ser o movimento estudantil?
O que concebemos como Movimento Estudantil – e esta é a hipótese defendida neste texto – deverá ser avaliado sob o crivo de variadas determinações, como: o momento pelo qual passa a luta de classes em determinado território e na Universidade; o histórico de atuação, a forma como historicamente organizaram e atuaram politicamente os estudantes; isso tudo em uma analise vista a partir de uma classe, a trabalhadora.
Se como instrumento pretendemos construir hegemonia política e moral no interior do segmento estudantil, devemos nos ater a este debate sem posições vistas a partir do nosso umbigo, mas com uma percepção estratégica da realidade.
Feita esta pequena introdução, vamos ao debate. A primeira questão seria: por onde passa a discussão de concepção de Movimento Estudantil?
Pois bem, o debate sobre Movimento Estudantil passa por diversas concepções e, que hoje, apesar de suas re-significações, podem ser reduzidas a duas grandes vertentes, que ainda continuam vigentes e gerando debates: movimento estudantil como organização gremial e movimento estudantil como movimento social.
Organização Gremial
Movimento Social
Forma
Constituiria o Movimento Estudantil como organizações representativas de uma categoria, a estudantil; organizado, basicamente, em função do território – escola, faculdade, universidade.
Constituiria o Movimento Estudantil como organizações de estudantes legitimamente constituídas, correspondentes ou não as formas representativas. Preocupação com a legitimidade da organização frente à base estudantil.
Con
t eúdo
Defesa dos interesses imediatos da categoria estudantil, dissociada de qualquer perspectiva de classe, ou projeto de sociedade.
Defesa dos interesses estudantis e de camadas populares, associada a uma perspectiva de classe, ou projeto de sociedade.
Feita esta análise preliminar, situando por onde se passará a discussão, tecemos uma análise um pouco mais detida sobre o assunto. Contudo, advirto de que este texto trata-se de um espaço introdutório ao debate, que deverá ser aprofundado coletivamente nos núcleos, acrescido ou mesmo rechaçado em suas categorias. E mesmo ante a amplitude do debate conterá apenas alguns aspectos, e não poderá abarcar toda sua complexidade. Por isso a necessidade de submetê-lo à crítica, e também do posicionamento frente as suas principais categorias.
2)      O que são Movimentos Sociais?
A primeira questão a ser resolvida será sobre os movimentos sociais. O que são? Como surgem? Este é um dos temas mais controversos na sociologia atual, por isso advirto sobre a dificuldade do caminho traçado dentro desse debate. Mas vamos a ele.
A luta de classes apesar de nunca se cessar, pode em determinadas circunstâncias, apresentar-se de forma difusa. A sociedade capitalista é dividida em classes, muitas classes ou frações de classes. A contradição central da sociedade capitalista se dá entre produtores de riqueza e àqueles que dela apropriam de forma privada, ou seja, entre burgueses e proletários. Mas o proletariado, como classe, é também parte constitutiva da dinâmica do capital e essa situação objetiva leva a momentos de clara acomodação à ordem.
Ou para usar a dialética, dois pólos que se opõem como contrários – burguesia e proletariado – estão também numa relação de identidade, um aspecto é ao mesmo tempo o outro, constituem eles uma unidade dialética (união de contrários), por este motivo num determinado ponto do processo, pode o proletariado transformar-se no seu contrário, ou seja, apresentar-se como representante da ordem.
No entanto, a inserção do proletariado na ordem do capital produz as condições que gerarão novamente as contradições. E, portanto, o confronto, e assim o desenvolvimento em potencial de uma consciência de classe. Neste exato momento, se tirarmos uma foto da luta de classes, é possível que os proletários não apareçam, pois os últimos anos, de reestruturação do mundo do trabalho, afetaram a subjetividade dessa classe, hoje resignada e inserida na dinâmica do Capital.
Contudo, tomemos cuidados antes de abandonarmos o velho proletariado, como fizeram alguns marxistas. A incapacidade da classe operária de satisfazer as expectativas de alguns marxistas é tipicamente citada por alguns intelectuais para abandoná-la e buscar novos atores. Em décadas recentes, os intelectuais atribuíram, um depois do outro, a responsabilidade histórica da transformação aos intelectuais, aos estudantes, aos novos sujeitos – a qualquer um, exceto ao movimento operário. O neoliberalismo aparenta ter dado o último golpe ao operariado, contudo, nunca nos esqueçamos de que esta aparente acomodação à ordem produz as condições que gerarão novamente as contradições entre capital-trabalho.
Também se torna evidente que os trabalhadores hoje não se apresentam da mesma forma de anos atrás, a reestruturação do mundo do trabalho nos coloca imensos desafios de compreensão da classe trabalhadora, sua conformação e seu potencial de conscientização política. O proletariado, apesar de compreendermos como sujeito social da revolução, não pode mais ser visto de forma restrita, identificando-o apenas como operário fabril, devemos ter uma concepção que alargue este entendimento, que veja as diversas classes trabalhadoras ou frações desta classe, atribuindo estrategicamente a cada um delas seu papel na luta de classes.
No contexto de ofensiva neoliberal e de acomodação à ordem do operariado na maioria dos paises da América Latina, é que tomaram evidência na cena política, os “novos movimentos sociais”.
Com o aprofundamento e também fracasso social da onda liberal na América Latina a partir da década de 80 – e por toda parte (como era lógico esperar) – ensejou o surgimento de uma grande variedade de movimentos sociais. Esses movimentos – alguns deles anteriores à onda neoliberal – posicionaram-se a partir do lugar ocupado por sua base social na estrutura de classes nas suas perspectivas de transformação social. O que significou que fizessem crítica aberta ao caráter de classe do Estado capitalista e reivindicassem o caráter de classe de suas lutas.
A hipótese a ser defendida neste texto é que as organizações sociais, os movimentos sociais, como os que eclodiram e eclodem no Brasil (MST, MMM, MTST, MTD), e na América Latina, em época de ofensiva liberal, somente são inteligíveis nos marcos de uma análise centrada nas lutas de classes. Aqui nos diferenciamos dos pós-modernos.
Os principais movimentos sociais que emergiram do neoliberalismo assumem feição distinta tanto do velho sindicalismo (o movimento operário), como dos movimentos europeus, muitos caracterizados por uma luta estritamente identitária. A possibilidade de uma conceituação unitária do que sejam os movimentos sociais, também deve ser problematizada, visto que, notadamente na América Latina, os movimentos são classistas e também multidimensionais – assim, um movimento pode ser classista e estar enfrentando simultaneamente questões étnicas e de gênero, por exemplo. E seria justamente esta congruência de variadas dimensões que os tornam novos, e distintos do movimento operário que centralizava as formas de organizações da classe trabalhadora em tempos anteriores, e que entrou em crise ante a contra-ofensiva neoliberal.
A abundante literatura que hoje se produz sobre movimentos sociais é eficaz em destacar a fragmentação e a diversidade como suas características centrais; derivando daí um conjunto de premissas explicativas. Afinal, se torna mais fácil ver indivíduos agrupados em busca da satisfação de seus interesses, e na constituição dos movimentos sociais, do que classes e luta política. Para os reprodutores da ideologia dominante parece que se tornou difícil ver as marcas das classes a qual pertence à base social dos movimentos, ou as opções de pautas destes movimentos que articulam suas lutas a uma classe através da via político-ideológica.
Mas então, quais seriam os traços marcantes dos movimentos sociais? Várias são as características que marcam os movimentos, mas destacarei apenas algumas: Valorização da cultura, afirmação de sua identidade, formação política de seus próprios militantes e intelectuais, organizações autônomas e opção de classe. Os movimentos procuram resgatar e valorizar as expressões culturais que constituem uma negação ao capitalismo e a afirmação de uma nova sociabilidade, socialista, calcada em valores de coletividade e de solidariedade. A afirmação de sua identidade constitui outra característica essencial, de se afirmar enquanto povo que luta, enquanto lutadores e lutadoras do povo, e especificamente, enquanto mulheres, sem-terras, negros e camponeses que estão em luta. A autonomia dos movimentos sociais se deve ao fato de se estruturarem em formas organizativas que não se vinculam diretamente aos partidos, apesar de deles sofrerem grandes influências.
Ademais, os movimentos sociais somente são inteligíveis sob uma perspectiva de classe. Através de um olhar sobre a realidade, de uma lente materialista dialética, nos permite perceber que esses grupos envergam as marcas das classes as quais pertencem, tanto em sua base social de composição, quanto pelas opções político-ideológicas que tomam. Assim, independentemente de outras marcas com as quais se cubram e das representações que tenham dessas condições, constituem movimentos com perspectiva de classe.
3)      Movimento Estudantil
a.      A visão gremial de interesses “profissionais” estudantis
O movimento estudantil é influenciado diretamente pelas contradições que permeiam a sociedade e, principalmente, pelo momento em que nesta se manifesta a luta de classes, pela conjuntura. Os estudantes e suas agrupações refletem e expressam o desenvolvimento dos interesses de classe e das agrupações políticas em toda a sociedade, possuindo com elas sinonímia. Coisa que Lênin já havia nos advertido no inicio do século passado.
Los estudiantes no serían lo que son si su modo de agruparse políticamente no se hallara en consonancia con la división en grupos políticos de la sociedad toda; ‘consonancia’ no entendida en el sentido de la plena proporcionalidad de los grupos estudiantiles y sociales en cuanto a la fuerza y el número, sino en el sentido de que entre los estudiantes tienen que darse, necesaria e ineludiblemente, los mismos grupos que existen en la sociedad. Y en la sociedad rusa en su conjunto, con su relativamente embrionario desarrollo de los antagonismos de clase, con su virginidad política, con el estado de atraso y de sojuzgamiento en que el despotismo policíaco mantiene a masas enormes, inmensas de la población, son característicos cabalmente esos seis grupos: los reaccionarios, los indiferentes, los partidarios de la cultura, los liberales, los socialista-revolucionarios y los socialdemócratas. En vez de ‘academicistas’ pongo aquí ‘partidarios de la cultura’, es decir, propugnadores del progreso legal sin lucha política, del progreso a base de la autocracia. Estos partidarios de la cultura se dan en todas las capas de la sociedad rusa y en todas partes, al igual que entre los estudiantes los ‘academicistas’ se circunscriben al estrecho círculo de los intereses profesionales.” (Lênin, Las tareas la juventud revolucionaria, primera carta).
Assim, possuindo os mesmos grupos que existem na sociedade e sendo dela reflexo, o processo pelo qual levou as organizações estudantis, mesmo de esquerda, a terem mergulhado em um estágio de luta econômico-corporativo, como um dado inescapável de seu trabalho de mobilização, refletem a atual realidade da luta de classes. Assim, para entendermos os aspectos pelos quais nossas organizações se interiorizam em lutas fragmentadas e mais, porque muitos desconectaram essas lutas de um projeto de classe, é fundamental que entendamos, em um breve histórico, o que se passou com as classes – trabalhadoras e burguesas – nos últimos anos. Para este resgate histórico, partiremos do ascenso dos trabalhadores das décadas de 70 e 80 e posterior contra-ofensiva neoliberal.
Pois bem, 1970 e 1980 haviam sido os anos do ascenso da classe trabalhadora, de luta por uma nova sociabilidade, de luta no âmbito político, e da perspectiva de formulação de um projeto de classe que pudesse exercer hegemonia no conjunto da sociedade. A parcela da burguesia brasileira, estritamente ligada ao capital financeiro internacional, para impedir esse avanço, utilizou-se de uma forte arma, a contra-revolução neoliberal.
A onda neoliberal que assolou o Brasil, no final da década de 1980 e nos anos de 1990 representou, no plano político, a derrota das classes trabalhadoras e, especialmente, do movimento operário que vinha em ascensão em período anterior, e ameaçando a hegemonia burguesa.
            As lutas empreendidas pelos trabalhadores brasileiros nos anos anteriores ao neoliberalismo eram portadoras de uma contradição potencialmente explosiva. A força de trabalho por não ser uma mercadoria qualquer, embora seu comprador tenha interesse em utilizá-la como queira, com vistas a extorquir mais valor, terá sempre de contar com uma presença incômoda, a do portador da força de trabalho, o trabalhador. O alardeado direito de liberdade da sociedade burguesa, dentro do processo de produção, somente chega até a porta da unidade de produção. Ali, a força de trabalho pertence ao capitalista, ele a comprou e se considera no direito de manejá-la da forma que queira. As lutas por democracia, no interior das unidades de produção, são para a burguesia, inconcebíveis. Entende-se, portanto, porque a burguesia tinha que fazer algo com relação ao avanço do movimento operário que avançava.
Foi assim que nos últimos anos no Brasil, paralelamente à redução dos empregos estáveis, aumentou em escala explosiva o número de trabalhadores, homens e mulheres, em regime de tempo parcial, em trabalhos assalariados temporários e precarizados. Essa forte manifestação de um novo segmento que compõe fortemente a classe trabalhadora hoje em nosso continente, o trabalhador precarizado, terceirizado e desempregado foi uma das maneiras, encontradas pela burguesia, de dividir, por dentro, a classe trabalhadora.
No decorrer da década de 1990, as organizações da classe operária foram corroídas. A estratégia da burguesia neste período foi o desmantelamento, por dentro, das lutas sindicais, eliminando todo e qualquer horizonte socializante, presente nos movimentos na década de 80. Com a reestruturação do mundo do trabalho, e suas conseqüências para as formas organizativas dos trabalhadores, retirou-se a transformação política de foco e colocou os trabalhadores em luta consigo próprios, pelas exigências mais imediatas. A luta imediata, isolada, acabou por rebaixar o nível de consciência, corrompendo o horizonte de classe, de luta pelo socialismo, que vinha se desenhando na década anterior.
Mas como todo projeto da burguesia, o neoliberalismo apresentou rachaduras sociais, o que fomentou a aparição de novos movimentos sociais. Mas mesmo os movimentos sociais que emergiram em decorrência do cataclisma neoliberal, procurou a burguesia neutralizar o potencial contestador das bandeiras de participação destes, tornando-as políticas de Estado executadas por agências estatais responsáveis pelas políticas sociais, ou tornando-as também bandeiras de atuação de diversas ONG’s. De certa forma procurou a burguesia controlar os movimentos cuja base social são clientes dessas políticas.
Fato importante foi que o Capital passou a se empenhar em organizar diretamente os trabalhadores, através de políticas empresariais de cunho filantrópico que procuraram atuar dentro das lutas populares, neutralizando-as. Tivemos um fenômeno que a historiadora Virgínia Fontes chamou de “conversão mercantil filantrópica da militância”, onde os militantes passaram a atuar por dinheiro, especialmente dentro de ONG’s, abrindo mão de grandes lutas políticas.
“… nós temos hoje um peso enorme de políticas empresariais de cunho filantrópico que procuram caracterizar os subempregados e os trabalhadores que estão atuando sem contrato como se fossem excluídos, desqualificando-os como trabalhadores. A dificuldade dessa visão filantrópica é que ela não é apenas uma forma de percepção da atualidade. É uma forma de organização política empresarial fortíssima, que procura atuar dentro das nossas lutas, fornecendo, eventualmente, pequenos recursos desde que os militantes engajados abram mão das grandes lutas e aceitem ficar no terreno das pequenas lutas.” Virgínia Fontes.
Influenciados por essa conjuntura, os movimentos da classe trabalhadora tomaram um estágio econômico-corporativo, como um dado inescapável do trabalho de mobilização. E ainda que articulem suas pautas a uma luta política difusa, de construção de um projeto de classe e opção de classe, restam, no momento, fragmentados e isolados em suas pautas.
O movimento estudantil, por sua vez, foi influenciado por essa conjuntura, pois já não havia movimento dos trabalhadores impulsionador de lutas políticas que mobilizassem e convocassem a sociedade e seus setores (entre eles o estudantil), como o havia realizado o movimento operário na década de 1980. Passou também o movimento estudantil a ter como paradigma essencial de atuação a luta corporativa, a defesa dos interesses imediatos da categoria estudantil.
Contudo, diferentemente das outras organizações sociais, que mantiveram a articulação de suas pautas a uma luta política de classes, ainda que difusa, cresceu fortemente no interior do movimento estudantil o paradigma da dissociação das lutas estudantis de qualquer luta política, e, por conseguinte, dissociada de qualquer perspectiva de classe, ou projeto de sociedade.
O movimento estudantil como instrumento defensor dos interesses “profissionais” dos estudantes tornou-se um dos motes de debate de concepção que se alardeou fortemente no movimento estudantil. E para isso, ressurgem fortemente os partidários do academicismo, de que o movimento estudantil deve se alicerçar sobre bases puramente “profissionais”, setoriais, fragmentárias, e uma palavra, acadêmicas. E que, portanto, deveria deixar de lado a luta política, coisa que não caberiam as organizações estudantis.
São os partidários da visão gremial do movimento estudantil. Propositores da atuação dentro da ordem, do movimento estudantil como defensor dos interesses estudantis descolados da política (um movimento estudantil dissociado e não identificado com qualquer projeto de classe). Defensores de uma suposta unidade do movimento estudantil, pois possuiriam os estudantes (todos os estudantes) interesses comuns, sem analisar a composição de classes presente entre eles, e que seria, portanto, “unitário” em suas reivindicações. Em essência, aquilo que Lênin definiu como “los estudiantes ‘academicistas’ que se circunscriben al estrecho círculo de los intereses profesionales”.
b.      A perspectiva política do ME enquanto movimento social
Primeiro sobre a composição e perspectiva de classe no movimento estudantil. É difícil precisar a composição de classes dos estudantes brasileiros, e, por conseguinte do movimento estudantil. Não há dados precisos sobre a relação do estudante frente à propriedade e sua posição nas relações sociais de produção, e mesmo sobre sua origem familiar, ou seja, a base material sobre a qual se assenta as classes sociais são informações pouco precisas de que dispomos.
Os poucos dados de que tivemos acesso se referem às instituições federais de ensino superior. Por isso, de antemão alertamos para a falta de uma compreensão satisfatória da realidade universitária sem termos contato com os dados das instituições privadas de ensino superior. Mas vamos ao que temos. Em 2003, por exemplo, considerando o universo das 53 IFES filiadas a ANDIFES e 531.6341 estudantes de graduação, matriculados neste período foi feita uma pesquisa por amostragem, onde se constatou que 65% dos estudantes são de famílias com renda entre R$ 207 e R$ 1.669, ou seja, compõe o que a economia burguesa definiu de classes B2, C, D e E; e estariam em situação “vulnerável”, necessitando de algum tipo de apoio financeiro até o fim de sua graduação. As classes C, D e E, renda familiar média de R$ 207 a R$ 927, teriam 43% dos estudantes matriculados.
Se cruzarmos estes dados como a composição da população brasileira, veremos que a Universidade continua a ser um espaço pouco acessível ao nosso povo. Onde, por exemplo, a parcela social que recebe em média R$ 424, e que compõem a maioria de nossa população, representa apenas o percentual de 3,9% dos estudantes que freqüentam instituições públicas universitárias.
Por outro lado, o poder de consumo, que é o parâmetro ao qual se detém essas pesquisas, não é capaz de definir, somente por si, a composição de classes dos estudantes, pelo menos não em termos marxistas. As classes sociais, na visão marxista, não se mensuram pelo poder de consumo (ainda que desta sofra influência), mas se traduz na posição econômica dos indivíduos em relação ao trabalho, ou seja, na disponibilidade, por não lhe restar outra coisa, de sua força de trabalho no mercado capitalista. Além do que, as classes sociais se constroem em luta, em sua ação e consciência, e isso as pesquisas não poderão mensurar.
As coisas se complicam ainda mais quando visualizamos que grande parte dos estudantes, filhos da classe trabalhadora, não está diretamente inseridos no mercado de trabalho quando estudantes. E que por sua condição transitória, estudantil, constituem potenciais trabalhadores, formatados pelo capital nas universidades, para sua posterior inserção na produção capitalista, ou mesmo, para figurarem com “exército industrial de reserva”.
A Universidade em tempos de política neoliberal aponta que uma das suas funções mais visíveis é:
A busca desesperada da mercadoria a ser produzida pela universidade [onde] o produto com maior visibilidade e disponibilidade é denominado recurso humano. Nesta perspectiva, a universidade é pensada como uma escola-fábrica, que produz a mão-de-obra com a qualificação desejada pelo mercado. É necessário o recurso humano profissional capaz de operar determinadas técnicas e aplicar conhecimentos especializados. A renovação tecnológica é uma dimensão progressivamente importante para a competição capitalista. Ela exige a formação de profissionais capazes de se ajustar com o mínimo tempo de adaptação à operação de novas técnicas. Dois caminhos são possíveis para a universidade. Pelo primeiro, formar o profissional com pleno domínio dos fundamentos de sua profissão e com capacidade de assimilar e de operar, criticamente, as inovações tecnológicas. Este velho objetivo dilata e amplia as exigências para a formação profissional. Pelo segundo caminho, é possível treinar mão-de-obra a utilizar, de forma acrítica, as técnicas do momento. Havendo a substituição da técnica, é um problema do profissional a sua requalificação. Nesta perspectiva, a universidade deve pensar carreiras curtas, cursos seqüenciais e flexibilidade curricular, que permitam a formação em massa, em tempo reduzido, de simples operadores das técnicas”. (Carlos Lessa)
A origem sócio-econômica dos estudantes universitários no Brasil, como já havia assinalado em texto anterior “é diversa, e em tempos recentes, com a grande ampliação de vagas no setor universitário, se tornou ainda mais complexa”. Há, por sua vez, uma clara diferenciação entre cursos e universidades que sejam destinadas aos filhos de trabalhadores e aquelas que sejam destinadas aos filhos da pequena-burguesia e da burguesia (mesmo entre as Universidades públicas). As universidades públicas, que até pouco tempo atrás eram consideradas como redutos da pequena-burguesia, foram inseridas na lógica da “formação em massa, em tempo reduzido, de simples operadores das técnicas”, em especial após a reestruturação neoliberal da Universidade brasileira, e que ainda está em curso.
Em resumo, a base social estudantil é diversa. Mas também diversa é a base social do movimento negro, do movimento de mulheres, e nem por isso deixam estes de serem movimentos sociais, pois o que caracteriza os movimentos sociais é sua atuação política enquanto grupo organizado. E muito menos se traduziriam estes movimentos em poli – classistas. Pois assumem posições de classe através das opções político-ideológicas que defendem. Pois assumem posição de classe através das opções de base a qual procuram defender em seus interesses, ou seja, os trabalhadores ou a burguesia.
Por sua vez, as demandas do movimento estudantil, em grande medida, não estão ligadas, diretamente, as relações sociais de produção, e isso gera enormes incompreensões na base estudantil. Mas devemos nos ater de que, mesmo quando o movimento social tem demandas, aparentemente não ligadas a relações sociais de produção, elas se articulam às lutas de classes, pois demandas de classe não é algo que somente se apresenta em componentes econômicos.
Vamos estar aceitos que a luta de classes opera em todos os níveis da sociedade. A luta de classes não é algo que se passa somente na fábrica, ela passa também nas universidades. Na fábrica, há aqueles que produzem o valor, que produzem a riqueza e há aqueles que se apropriam dessa produção. A produção da riqueza é socializada, mas a apropriação é privada. Você tem de um lado a classe operária e de outro os capitalistas. Na f[abrica, a luta de classes possui um componente claramente econômico, e de fácil identificação.
Na Universidade as coisas se dão de forma diferenciada, não há uma luta entre patrão e trabalhador, embora recentemente esteja ocorrendo crescente exploração capitalista do trabalho estudantil, como exemplo os estudantes que trabalham por comida nos restaurantes universitários. Mas de forma geral, a luta de classes passa na universidade não porque haja exploradores e explorados. A universidade é um espaço de produção e reprodução de técnicas e de ideologia, de produção e reprodução do conhecimento. Desta forma, a luta de classes, passa na Universidade, em grande medida, pela direção social do conhecimento. O controle das pesquisas e do ensino pelas grandes empresas. Na Universidade, a luta de classes possui características próprias, sendo mediada pela função social desta instituição.
E fácil constatar que para a visão de movimento estudantil enquanto movimento social, toda luta estudantil, ainda que de cunho acadêmico é também uma luta política, uma luta pela direção social do conhecimento. E que pelas opções político-ideológicas que assumem nesta luta, também uma luta por um projeto de classe.
c.       A lógica organizativa
Os defensores de uma visão gremial de movimento estudantil, como não poderiam ser diferentes, defendem um casamento lógico e inescapável do movimento estudantil com sua face formal, as entidades. Para estes, somente as organizações formalmente constituídas e representativas dos estudantes constituiriam movimento estudantil. Somente uma entidade formal, ou seja, aquela que passa por todos os tramites legais para sua constituição, e que possua eleições periódicas e democráticas de seus membros é capaz de representar os interesses “universais” dos estudantes.
Por outro lado, os partidários do movimento estudantil enquanto movimento social defendem uma visão mais flexível nesta conceituação. E apesar de não desqualificarem as entidades formais como espaços de luta política, não resumem o movimento estudantil a estas. Contudo, não se qualificaria qualquer organização ou aglomerado de estudantes como componente do que seja o movimento estudantil. Uma frase celebre da tradição de movimento estudantil da qual provenho: “movimento estudantil, não são estudantes em movimento”. Organizações como os grupos de oração, grupos de extensão, grupos de estudo, apesar de poderem possuir formação política não figurariam como movimento estudantil. O movimento estudantil seria composto por organizações de conotação política, ou seja, organizações que disputem, teórica e em sua ação pratica, a direção das lutas estudantis. Um exemplo muito característico seriam os grupos políticos, geralmente formados após a perda de uma entidade formal, e que se mantém organizados e em luta.
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